Pular para o conteúdo principal

Atualização Científica: revisão completa de 21 páginas, novas fontes primárias e fim de generalizações sobre hormônios e exames

· 11 min para ler
Guia HRT
Guia HRT
Colaboradores do Guia HRT

Passamos o Guia HRT por uma revisão científica completa em 21 páginas da documentação. Nenhum espaço comunitário de saúde deve se apoiar em frases absolutas do tipo "isso nunca funciona", "isso dispensa exames" ou "isso zera o risco". A terapia hormonal lida com corpos diferentes, doses variadas e respostas individuais. Por isso, revisamos o guia de ponta a ponta para que cada afirmação tenha o peso exato do que os estudos clínicos mostram na prática, em português direto e com as referências originais anexadas no final de cada página.

Aqui está o resumo do que foi atualizado, corrigido e referenciado no site:


1. Algestona + Enantato de Estradiol (Perlutan), Calculadoras e Bloqueadores​

Ajustamos tanto a explicação sobre o uso de bloqueadores junto com injeções combinadas quanto a apresentação das tabelas de dosagem:

  • Avisos sobre bloqueadores baseados em exames: No estudo brasileiro da UNIFESP e UFU com 101 mulheres trans usando algestona acetofenida + enantato de estradiol (Toffoli Ribeiro et al., 2024, com intervalo médio de 24,6 dias), 82,6% atingiram níveis de estradiol e testosterona na faixa feminina sem bloqueador oral. A orientação inicial segue sendo não começar a injeção já tomando bloqueadores no primeiro dia. Porém, para a parcela que mantém testosterona acima da meta ou sinais de ação androgênica no exame de vale (seja por queda do hormônio no fim do ciclo ou por produção das glândulas suprarrenais), explicamos por que um antagonista direto de receptor como a bicalutamida faz mais sentido farmacológico do que somar outra progestina como a ciproterona.
  • Diferença de meia-vida entre os dois componentes: Explicamos que o enantato de estradiol tem meia-vida de 5,6 a 7 dias, enquanto a algestona acetofenida permanece circulando com meia-vida de cerca de 24 dias (Düsterberg & Nishino, 1982; Oriowo et al., 1980). Isso esclarece por que ciclos de 28 a 30 dias funcionam para parte das pessoas, mas deixam outras com sintomas de baixa hormonal na última semana.
  • Calculadoras e gráficos como estimativas demonstrativas: Adicionamos um aviso no Guia de Injetáveis de Estradiol deixando claro que tabelas em pg/mL e simuladores de curvas na internet são apenas ilustrações baseadas em médias populacionais de uma única aplicação (Aly, 2021). Eles servem para visualizar a diferença de estabilidade entre intervalos de 7, 10 e 14 dias, mas não adivinham o nível exato no seu sangue nem substituem o exame de laboratório.

2. Monoterapia em Vias Não Injetáveis (Comprimidos, Sublingual, Gel e Adesivos)​

Antes, as caixas de aviso no topo dos guias de comprimidos, sublingual, gel e adesivos diziam que essas vias "não suprimem" a testosterona sozinhas. Reescrevemos esses avisos para refletir os números reais:

  • Em doses habituais, comprimidos orais e sublinguais (2 a 6 mg/dia) ou gel (3 a 4 mg/dia) baixam a testosterona para menos de 50 ng/dL sem bloqueador em uma minoria até cerca de metade das usuárias (20% a 50% nos levantamentos de Leinung et al., 2018 e Nolan et al., 2022). Por isso, usar um bloqueador junto continua sendo o caminho mais previsível nessas doses, a menos que o exame de sangue mostre que o estradiol sozinho já deu conta.
  • Já em esquemas transdérmicos de dose mais alta, como os adesivos estudados no ensaio clínico PATCH (Langley et al., 2021), a supressão da testosterona chegou a 85%.

3. O Papel Real da SHBG, Saturação de Receptores e Risco de Trombose​

Corrigimos em cinco páginas a explicação sobre a proteína SHBG (Globulina Ligadora de Hormônios Sexuais) e o excesso de dose de estradiol:

  • Receptores têm limite, mas a SHBG não "anula" o tratamento: Doses muito altas de estradiol não aceleram o crescimento das mamas porque os receptores celulares têm um limite de resposta. No entanto, a subida da SHBG causada pelo estradiol não "sequestra" todo o hormônio livre a ponto de travar a transição (Aly, 2020).
  • Por que a SHBG importa no exame: A SHBG é produzida pelo fígado quando ele recebe cargas altas de estrogênio (sobretudo em comprimidos engolidos ou doses injetáveis exageradas). Quando ela sobe muito, é sinal de que o fígado também está fabricando mais fatores de coagulação, o que eleva o risco de trombose sem trazer nenhum ganho extra de feminização.
  • Via transdérmica e trombose: Ajustamos os trechos que diziam que o gel e o adesivo "eliminam" o risco de trombose ou de resistência à insulina. Estudos como o ESTHER (Canonico et al., 2007) mostram que a via transdérmica não elevou o risco de trombose em comparação a não usuárias na população estudada e tem impacto muito menor que a via oral, mas o risco basal individual (idade, tabagismo, genética, imobilização) nunca cai a zero.

4. Ciproterona, Espironolactona, Bicalutamida e Progesterona​

Refinamos os dados de segurança e eficácia dos três principais bloqueadores e da progesterona micronizada:

  • Acetato de Ciproterona (dose baixa, meningioma e B12):
    • Adicionamos os dados do estudo europeu ENIGI com 882 mulheres trans (Kuijpers et al., 2021), no qual 10 mg/dia suprimiu a testosterona tão bem quanto 25 a 100 mg/dia, com menos subida de prolactina e menor impacto no colesterol HDL.
    • Detalhamos as faixas exatas de risco relativo de meningioma do estudo francês de Weill et al. (2021, The BMJ): tendo como referência menos de 3 g acumulados, o aumento não foi estatisticamente significativo entre 3 e 12 g (HR de 2,2), mas subiu para 6,4 vezes entre 12 e 36 g, 11,3 vezes entre 36 e 60 g e 21,7 vezes acima de 60 g.
    • Separamos os relatos de cansaço e queda de humor das hipóteses biológicas propostas para explicá-los, como a ação nos receptores de glicocorticoides e a possível redução de vitamina B12 (observada em doses altas de 50 a 100 mg/dia por Ramsay & Rushton, 1990).
  • Espironolactona e exames de potássio: Explicamos a diferença entre a recomendação padrão das diretrizes (medir potássio e creatinina antes de começar, aos 3 a 6 meses e após subidas de dose) e o que mostram estudos recentes (Liang et al., 2018; Millington et al., 2019; Hayes et al., 2022): em mulheres trans jovens (abaixo de 45 anos) e com rins saudáveis, a taxa de potássio alto foi de 0,8% a 2,2% (quase sempre leve e sem sintomas), enquanto acima dos 45 anos ou em quem tem doença renal ou usa medicamentos que retêm potássio esse risco sobe para cerca de 8% e exige controle rigoroso.
  • Bicalutamida (bloqueio competitivo e fígado): Esclarecemos que a bicalutamida age por competição nos receptores, ou seja, 25 a 50 mg/dia funcionam bem quando associadas ao estradiol (que já baixa a produção de testosterona), enquanto bloquear níveis masculinos cheios exigiria doses muito maiores (150 mg/dia nos estudos de Tyrrell et al., 1998). Também incluímos os dados de acompanhamento em mulheres trans (Burgener et al., 2025; Wilde et al., 2024; Neyman et al., 2019) e o motivo de monitorar TGO e TGP nos primeiros meses.
  • Progesterona micronizada (oral vs. retal e mamas): Adicionamos os dados clássicos de metabolismo oral em neuroesteroides sedativos como a alopregnanolona (Simon et al., 1993) e os resultados preliminares do primeiro ensaio clínico randomizado da Amsterdam UMC apresentado no congresso EPATH 2025 (Geels, Dreijerink et al., 2025), no qual doses mais altas ou uso retal mostraram ganho modesto de volume mamário em parte das participantes após 12 meses, embora ainda faltem estudos maiores de segurança a longo prazo.

5. Terapia Transmasculina: Hematócrito, Aromatização e Exames sem Jejum​

Nos guias de testosterona e exames para pessoas transmasculinas, corrigimos três pontos importantes:

  • Subida do hematócrito (policitemia) entre gel e injetáveis: Retiramos a afirmação de que o undecilato de testosterona (Nebido/Hormus) teria risco "quase nulo" de subir o hematócrito. Em acompanhamentos grandes com homens trans (como Madsen et al., 2021, com 1.073 participantes, e a revisão de Ohlander et al., 2018), o undecilato teve perfil mais estável que ésteres curtos em algumas comparações, mas as injeções de longa duração apresentaram taxas relevantes de subida dos glóbulos vermelhos, enquanto o gel transdérmico teve a menor incidência de todas as vias. O hemograma segue obrigatório em qualquer modalidade injetável.
  • Aromatização vs. sangramento menstrual persistente: A conversão de testosterona em estradiol pela enzima aromatase no tecido adiposo é proporcional à quantidade de testosterona disponível (Lakshman et al., 2010), não um efeito que só "dispara" depois que receptores saturam. Além disso, esclarecemos que sangramentos uterinos que continuam após 6 a 12 meses de tratamento costumam vir de dose insuficiente, intervalo longo demais entre as injeções ou fatores endometriais locais (Defreyne et al., 2020), e raramente de "excesso de testosterona virando estrogênio".
  • Jejum de 12 horas dispensado na rotina para Colesterol: Atualizamos a tabela do Guia de Exames Transmasculino de acordo com o Consenso Brasileiro para a Normatização da Determinação Laboratorial do Perfil Lipídico (SBC/SBPC-ML, 2016), que dispensa o jejum obrigatório de 12 horas para colesterol total, HDL e LDL na rotina (o jejum longo só é exigido quando os triglicerídeos passam de 400 mg/dL).

6. Técnicas de Injeção: Gordura Subcutânea, Aspiração e POME​

No módulo compartilhado de Técnicas de Aplicação Injetável, ajustamos três explicações práticas:

  • Injetar na gordura vs. no músculo: Diferenciamos o desconforto local da absorção do hormônio. Quando uma injeção planejada para ser intramuscular cai na camada de gordura por uso de agulha curta demais, ela pode causar caroço, coceira e dor local por vários dias; porém, estudos farmacocinéticos com ésteres em óleo mostram que o hormônio ainda é absorvido e atinge níveis eficazes no sangue (Mackey et al., 1995; Spratt et al., 2017).
  • Por que aspirar a seringa em injeções oleosas: Enquanto a OMS dispensa a aspiração para vacinas aquosas no deltoide e no vasto lateral, em injeções hormonais oleosas a puxada leve do êmbolo por 5 a 10 segundos (especialmente na região dorsoglútea) continua sendo recomendada como cautela prática para evitar injetar óleo dentro de um vaso e causar microembolia pulmonar oleosa (POME) (Herndon et al., 2023).
  • O que é a POME: Explicamos que a tosse seca súbita, gosto metálico ou aperto no peito logo após uma injeção oleosa vêm da passagem de microgotas do óleo carreador para a circulação pulmonar, um quadro transitório que costuma passar em alguns minutos a poucas horas, mas que assusta bastante e é prevenido com aplicação lenta e técnica correta.

7. Regulamentação da Testosterona, Marca Inexistente e Padronização de Fontes​

Além da revisão clínica, mantivemos as melhorias estruturais feitas no repositório:

  • Classificação sanitária do gel de testosterona: Esclarecemos que todas as apresentações de testosterona (incluindo o gel) pertencem à Lista C5 da Portaria SVS/MS nº 344/1998 e exigem legalmente receita de controle especial em duas vias, contextualizando a diferença entre a exigência na lei e a prática nas drogarias.
  • Remoção da marca inexistente "Pregnolan": Excluída por não possuir registro sanitário na ANVISA.
  • Fontes primárias em todas as páginas: Substituímos antigos links da Wikipédia por artigos indexados no PubMed, PMC e DOI nas seções recolhíveis <details> ao final de cada guia revisado.

Páginas atualizadas nesta revisão:​