Grande Revisão Farmacológica e Científica: injetáveis, genéricos da Perlutan e atualização geral do Guia HRT
Concluímos uma revisão sistemática em todas as seções do Guia HRT. O objetivo desse trabalho foi alinhar o conteúdo à farmacologia clínica atual, checar referências no PubMed e SciELO e responder a dúvidas práticas sobre compras em farmácia, exames laboratoriais e vias de administração.
Entre os pontos centrais, detalhamos o que mudou na compra de injetáveis com a descontinuação da marca Perlutan®, a validação do regime quinzenal pelo Protocolo Trans SP, o ajuste de doses seguras de antiandrógenos e as metas de exames na hormonização transmasculina e transfeminina.
1. Injetáveis: a saída da Perlutan® e as opções no balcão
A farmacêutica Boehringer Ingelheim encerrou a importação e distribuição da marca original Perlutan® no Brasil. O nome permaneceu como referência popular no país, mas a ampola hoje é encontrada no balcão sob forma de genérico ou por outras marcas comerciais registradas.
Para quem compra em farmácia física ou drogarias online, as opções com registro ativo na Anvisa são:
- Genéricos: peça pelo princípio ativo: Enantato de Estradiol 10 mg + Algestona Acetofenida 150 mg (fabricado por laboratórios como EMS, Eurofarma, Teuto, Neo Química, Cimed e Legrand).
- Similares de marca: formulações idênticas registradas com outros nomes, como Uno-Ciclo, Pregnolan, Preg-Less, Dáiva e Ciclovular.
Na tabela de farmácia, mantivemos o alerta contra trocas inadequadas sugeridas em balcão: fórmulas como Mesigyna ou Noregyna não servem como substitutas. Elas contêm apenas 5 mg de valerato de estradiol e levam enantato de noretisterona, uma progestina derivada da testosterona com potencial efeito androgênico.
2. O SUS e o Protocolo Trans SP para Injetáveis
É comum ver discussões online tratando o enantato de estradiol com algestona como se não contasse com nenhum respaldo clínico, em grande parte porque fóruns internacionais se orientam por diretrizes norte-americanas (onde a algestona nunca foi submetida à FDA nem vendida).
No Brasil, a realidade divide-se entre a esfera federal e a municipal:
- Âmbito federal: a portaria nacional do Processo Transexualizador no SUS padroniza apenas estradiol oral e transdérmico. Embora a fórmula de enantato + algestona conste na RENAME desde 2022, ela foi registrada estritamente para contracepção. Travas de sistema nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) impedem a retirada pela maioria das mulheres trans, que recorrem às drogarias privadas.
- Protocolo Trans de São Paulo: a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo formalizou o acolhimento dessa prática no Protocolo Trans SP (SMS-SP, 3ª ed., 2024). O documento orienta profissionais da rede municipal a acompanhar o uso quinzenal (10 mg a cada 14 dias), com monitoramento de níveis séricos no vale (coleta de sangue no dia da aplicação, antes da nova picada).
3. Farmacologia Transfeminina: doses seguras e antiandrógenos
Revisamos as páginas de medicamentos transfemininos com base em diretrizes internacionais (WPATH SOC-8, Endocrine Society) e coortes clínicas recentes:
- Ciproterona em dose baixa: destacamos que doses de 10 a 12,5 mg ao dia (um quarto de comprimido de 50 mg em dias alternados ou diários) são suficientes para suprimir a testosterona quando associadas ao estradiol, conforme demonstrado no estudo ENIGI (Kuijpers et al., 2021). Doses antigas de 50 a 100 mg elevam o risco desnecessário de meningioma e prolactinoma cumulativo.
- Bicalutamida: esclarecemos seu mecanismo como bloqueador periférico do receptor androgênico (que não reduz os níveis de testosterona no laudo, pois não inibe o eixo hipotálamo-hipófise) e incluímos estudos sobre seu perfil de tolerabilidade hepática em doses de 25 a 50 mg (Wilde et al., 2024; Burgener et al., 2025).
- Espironolactona: contextualizamos o efeito diurético, a hipotensão postural e o risco real de hipercalemia, que é incomum em pessoas jovens e saudáveis sem disfunção renal prévia.
4. Farmacologia Transmasculina: ésteres, metas e hematócrito
No guia transmasculino, consolidamos as diretrizes de acompanhamento laboratorial e a regulação de farmácia:
- Metas de Testosterona: alinhamento com a faixa masculina fisiológica recomendada pela Endocrine Society (300 a 1.000 ng/dL no vale).
- Hematócrito e segurança cardiovascular: monitoramento do hemograma para prevenir complicações por eritrocitose. O valor de corte de atenção clínica situa-se entre 50% e 52%, conforme avaliado em coortes de longo prazo como a de Amsterdã (Madsen et al., 2021).
- Acesso e regulação: reforçamos que, pela Portaria SVS/MS nº 344/1998 (Lista C5) e Lei nº 9.965/2000, tanto ampolas injetáveis (Deposteron, Durateston, Nebido) quanto o gel transdérmico (Androgel) são substâncias controladas e exigem Receita de Controle Especial em duas vias.
5. Vias de Estradiol: oral, sublingual e transdérmica
Sincronizamos os perfis farmacocinéticos das diferentes vias de administração de estrogênio:
- Via oral (comprimidos de valerato): explicamos o impacto da primeira passagem hepática, a conversão em estrona (relação E1:E2 desfavorável) e o aumento relativo no risco tromboembólico em comparação às vias não orais.
- Via sublingual: detalhamos a absorção direta pela mucosa oral, gerando picos rápidos e meia-vida curta, o que demanda divisão da dose ao longo do dia para evitar oscilações bruscas.
- Via transdérmica (gel e adesivos): destacamos a estabilidade sérica de 24 horas do gel, a menor interferência nos fatores de coagulação hepáticos e as diferenças de absorção entre antebraço, coxas e região escrotal.
6. Técnicas de Injeção e Redução de Danos no DIY
O manual técnico compartilhado de injeções e a página de erros comuns foram atualizados com foco em biossegurança:
- Técnica asséptica e aplicação: orientações práticas de higienização das mãos, assepsia com álcool 70%, aplicação intramuscular no ventroglúteo ou vasto lateral com técnica em Z (para evitar refluxo do óleo) e via subcutânea em 45° ou 90° conforme o comprimento da agulha.
- Riscos de formulações perigosas: alerta explícito contra o uso de anticoncepcionais orais combinados com etinilestradiol (elevado risco de trombose sem vantagem clínica) e o perigo de dosagens suprafisiológicas sem exames periódicos.
- Acolhimento sem estigma: no estudo TransOdara (Bassichetto et al., 2024), 72,6% das mulheres trans e travestis em cinco capitais brasileiras relataram fazer uso de hormônios sem receita médica. A missão do Guia HRT é fornecer informação precisa de redução de danos para que quem não tem acesso imediato ao especialista possa se proteger contra erros evitáveis.
7. Decisão, Cidadania e Saúde Mental
Nas páginas conceituais, adicionamos dados de estudos quantitativos sobre a saúde mental e a tomada de decisão:
- Benefícios do cuidado afirmativo: coortes longitudinais (Tordoff et al., 2022 / JAMA Network Open) associam o início da hormonização a uma queda de 60% nas chances de depressão moderada a grave e de 73% na ideação suicida.
- Impacto do respeito ao nome social: o estudo de Russell et al. (2018) registrou 71% menos sintomas depressivos graves e 65% menos tentativas de suicídio quando o nome escolhido é respeitado em casa, no trabalho e na escola.
- Destransição e pausas: dados do USTS analisados por Turban et al. (2021) demonstram que 82,5% das pessoas que interromperam a transição apontaram fatores externos (pressão familiar, discriminação no emprego ou falta de dinheiro), enquanto apenas 15,9% citaram motivos internos ou dúvidas sobre a identidade.
- Satisfação cirúrgica: metanálise com 7.928 participantes (Bustos et al., 2021) identificou uma taxa média de arrependimento pós-cirúrgico de apenas 1%, um dos índices mais baixos de toda a medicina cirúrgica.
8. Principais Referências Adicionadas
Abaixo listamos as principais diretrizes e estudos clínicos incorporados e verificados nesta revisão:
- WPATH SOC-8 (2022): Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8 (PMID: 36238954).
- Endocrine Society (2017): Endocrine Treatment of Gender-Dysphoric/Gender-Incongruent Persons: Clinical Practice Guideline (PMID: 28945902).
- Protocolo Trans SP (SMS-SP, 3ª ed., 2024): Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.
- RENAME / Ministério da Saúde (Agência Brasil, 2022): Incorporação da fórmula injetável mensal no SUS.
- Projeto TransOdara (Bassichetto et al., 2024): Uso de hormônios sem prescrição médica em capitais brasileiras (PMID: 39166582).
- Coutinho et al. (Contraception, 2006): Farmacodinâmica de enantato de estradiol com algestona acetofenida (PMID: 16472564).
- Krüger et al. (Rev Bras Epidemiol, 2019): Características do uso hormonal por travestis e mulheres trans no DF (PMID: 31576980).
- Kuijpers et al. / ENIGI (2021): Eficácia de doses baixas de acetato de ciproterona na supressão androgênica (PMID: 34125226).
- Tordoff et al. / JAMA Netw Open (2022): Desfechos de saúde mental em jovens sob cuidado afirmativo (PMID: 35212746).
- Bustos et al. / PRS Glob Open (2021): Metanálise sobre taxas de arrependimento pós-cirúrgico (PMID: 33968550).
- Turban et al. / LGBT Health (2021): Fatores de interrupção e destransição no USTS (PMID: 33794108).
Todas as páginas da documentação já estão atualizadas e com seções completas de referências indexadas. Navegue pelos guias e consulte os detalhes específicos em cada capítulo!
